Ecletismo atual

Carlos Lemos defende que arquitetura do fim do século XIX já antecipava diversidade da globalização

Daniel Chiozzini e André Gardini

O historiador e arquiteto Carlos Lemos é um dos maiores conhecedores da arquitetura eclética brasileira, muito popular entre o final do século XIX e início do século XX. Os estilos do ecletismo (neogótico, neoclássico, por exemplo) eram, em geral, inspirados em estilos históricos, do passado. Na cidade de São Paulo, um dos principais promotores do ecletismo foi o escritório dirigido por Ramos de Azevedo. De lá saíram obras como Teatro Municipal e o Mercado Municipal de São Paulo. Nesta entrevista, Carlos Lemos conta que a biografia que escreveu de Ramos de Azevedo (Ramos de Azevedo e seu escritório), nasceu para corrigir um erro tipográfico presente em seu livro anterior, Alvenaria burguesa, e compara a mistura de estilos promovida pelo ecletismo com a cultura contemporânea em tempos de globalização.

Carlos Lemos, além historiador, capaz de lidar de maneira integrada com o desenvolvimento da arquitetura e a dinâmica da sociedade, foi diretor do escritório de Oscar Niemeyer, em São Paulo, nos anos 1950. Aqui, ele também fala sobre o modernismo no Brasil e a relação desse movimento com a arquitetura colonial.

Patrimônio – O senhor dedica uma parte de sua produção intelectual ao estudo do trabalho do arquiteto Ramos de Azevedo. Qual a singularidade da obra de Azevedo, sua importância para São Paulo e que razão o levou, pessoalmente, a estudá-lo?
Carlos Alberto Cerqueira Lemos – Trato do ecletismo. Em meu trabalho de livre docência na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da USP, tratei de arquitetura eclética e o grande nome do ecletismo, em São Paulo, foi Ramos de Azevedo. Esse trabalho recebeu o nome de Alvenaria Burguesa e foi publicado em livro, onde verifiquei a posteriori que havia um equívoco na composição tipográfica. O nome da universidade belga onde Ramos de Azevedo estudou foi grafado errado.

Somente alguns anos depois é que eu percebi esse erro, através da observação de um editor inglês que havia pedido a mim que fizesse a biografia do Ramos [de Azevedo] para uma enciclopédia. O editor me disse que escola com aquele nome que estava no meu livro na Bélgica não existia. Aí confirmei que estava errado. Com isso, resolvi assumir como uma obrigação escrever uma biografia do Ramos de Azevedo, para corrigir esse erro e para por os pontos nos is, situando o Ramos no panorama da arquitetura paulista e brasileira. Então, escrevi Ramos de Azevedo e seu escritório, uma biografia do arquiteto somada às notícias e informações sobre sua produção de seus auxiliares.

Ramos de Azevedo foi muita coisa ao mesmo tempo, não foi só arquiteto. Foi professor, era um homem de atividade social muito grande. Era membro de vários conselhos, era presidente de bancos, fazia parte da Companhia Mogiana, foi senador. E chefe de empresas, casa de comércio, indústrias, tinha uma companhia que financiava obras. Evidentemente, um homem com tantas atribuições como essas não podia se dedicar integralmente ao escritório de arquitetura. De modo que, a partir de 1900, ele não ia mais ao escritório. Ele controlava a produção, mas sem projetar. Praticamente toda a produção do escritório foi comandada por um auxiliar dele, que era o Domiziano Rossi. Depois, por sócios, que tocaram o escritório, tendo em mente o pensamento do Ramos. Mas ele não desenhava nem produzia mais. Com isso, sua obra se diversificou muito. O que me levou a estudar vida e obra de Ramos de Azevedo foi uma casualidade, um erro de tipografia, como disse.

Patrimônio – Como Ramos de Azevedo se destaca dentro desse cenário do ecletismo e que outros aspectos seriam relevantes?
Lemos – O ecletismo foi uma fatalidade universal. Talvez uma das primeiras manifestações da globalização. O ecletismo poderia ficar restrito à França ou à Inglaterra, onde houve uma celeuma a respeito de revitalização de estilos passados. A França só aceitava o neoclássico e não admitia mais nada, e os ingleses estavam propensos a fazer um gótico mais modernoso, no primeiro quartel do século XIX.

E essa discussão ficou entre os acadêmicos: o que vale? o neoclássico ou o neogótico? Então surgiu o emprego de uma palavra da filosofia para classificar as várias manifestações da arquitetura: ecletismo. Na filosofia isso significa tolerância de mais de uma idéia. As idéias não podem ser excludentes. O ecletismo aconselhava que fossem aceitos ambos os estilos. E a palavra ecletismo assumiu de tal forma essa briga que, de repente, surgiu o comportamento eclético, que assumia a história artística de todos os países ou o ecletismo histórico.

E correu o mundo. Talvez devido a facilidade de comunicação já advinda da revolução industrial, telégrafo, imprensa, fotografia, vários motivos que levaram à internacionalização da arquitetura. Na segunda metade do século XIX, praticamente se construía igual no mundo inteiro, evidentemente com personalidade e muito caráter em certos locais, como Gaudi, por exemplo, e outros arquitetos de Barcelona, que participaram de um ecletismo sui generis. Durante o ecletismo, também houve uma corrente tradicionalista, aquela que continuou até o fim do século XIX a cultuar o neoclássico. Gente que não mudou de idéia, desde o tempo de Napoleão.

Ramos de Azevedo, no fundo, foi um agente cultural, junto com outros arquitetos, que também participaram do ecletismo, mas ele foi o maior de todos porque produziu mais. Ao mesmo tempo, foi professor da Poli (USP). Além dele tivemos outros, como Carlos Eckman, que fez o prédio onde funciona a Faculdade de Arquitetura, na rua Maranhão e Victor Dubugras, francês de nascimento que estudou em Buenos Aires e veio praticar o ecletismo no Brasil. Dubugras foi o precursor de nosso modernismo em vários sentidos, inclusive na adoção de técnicas construtivas modernas.

Patrimônio – Ramos de Azevedo é lembrado também pela relação muito próxima que tinha com seus empregados, interessando-se pela formação deles. Esse tipo de relação se perdeu hoje? É possível dizer que isso se deve à evolução técnica do modernismo?
Lemos – Vários fatores culminaram no surgimento de uma escola, o Liceu de Artes e Ofícios. Ramos era positivista e maçom. Com esse pensamento filosófico, herança da República Velha – todos os republicanos eram positivistas – ele propugnava pelo maior incremento possível da educação, em todos os níveis. Quando fundou a Politécnica, junto com Paula Souza, tinha a idéia de fazer uma escola para produzir profissionais aptos a construir tudo. Esse era um pensamento de total contraposição com a escola do Rio de Janeiro, mais voltada às manifestações artísticas, relegando para o segundo plano as partes técnicas. Então, Ramos e Paula Souza verificaram que era inútil ter uma escola superior formando técnicos habilitados a projetar aquilo que fosse mais moderno possível, mas sem existir uma retaguarda apta a construir aquilo. Havia uma carência total de mão-de-obra especializada.

Então Ramos transformou uma entidade assistencial, que vinha do Império, em um instituto, o Liceu, para formar profissionais de várias categorias. Na serralharia, na marcenaria, na cultura, pintura. Enfim, tinha curso de todas as naturezas até de encadernação de livros e eles foram extremamente bem sucedidos nisso, pois São Paulo foi provida de artesãos e operários altamente qualificados. Nesse contato, com a escola e com seus operários, quase todos imigrantes – a maioria dos professores também era imigrante italiana – Ramos ganhou uma espécie de carisma e impunha uma autoridade incrível. E ele também era, ao mesmo tempo, paternalista, dado a conversar e a ouvir o problema de seus operários. Era querido, tanto que partiu deles a idéia do monumento quando de sua morte e não de nenhuma autoridade.

Patrimônio – Esse tipo de relação se perdeu hoje?
Lemos – Praticamente. Desapareceu por vários motivos. Hoje não existe mais a figura do chefe de escritório, do grande comandante do exército de construtores. Ramos era patrão de centenas de operários, engenheiros, técnicos. Hoje está tudo terceirizado, tudo é muito impessoal. Os projetos são desmembrados em tipos, o de eletricidade, o de hidráulica, cada um vai para um escritório diferente e cada escritório tem sua equipe de artesãos ou operários, cujo nível técnico de trabalho é baixo pois já não existem tantas escolas. Para o número de operários que trabalham na cidade de São Paulo, hoje, seria preciso, no mínimo, cem liceus de arte e ofício. Não se formam técnicos na quantidade necessária. Além do mais, a arquitetura deixou de ser artesanato. Hoje em dia, por exemplo, placas pré-moldadas substituem os tijolos. A tendência realmente é desaparecer essa ligação que havia antigamente.

Patrimônio – O século. XIX é freqüentemente lembrado como um período de transição, de chegada da “modernidade” a algumas regiões do Brasil, principalmente associadas à produção do café. Quais as principais características e os marcos deste processo?
Lemos – A principal característica do séc. XIX é ser o século ponte, de aplicação das descobertas advindas da Revolução Industrial, que tiveram início no final do XVIII. O século XIX propiciou uma revolução da técnica construtiva com o ecletismo. E foram justamente as novas inve nções que fizeram com que os técnicos descobrissem novos métodos modernos de construção para atender certos programas que não existiam antes. Para existirem as estradas de ferro, era preciso trilhos, ou seja, novos moldes de siderurgia. Nas cidades, eram as estações que necessitavam de grandes espaços, de estruturas metálicas. Tudo isso foi sob solicitação de novos investimentos.

O desenvolvimento das comunicações encheu de vento e de esperança todo mundo do século XIX. O ecletismo, que nasceu da academia francesa, existe até hoje, muitas pessoas participam do ecletismo do século XIX. O movimento modernista no fundo foi herdeiro de uma cultura provocada por engenheiros que descobriram e aperfeiçoaram novas técnicas construtivas. A arquitetura moderna não veio de uma ruptura, veio de uma cultura advinda de modos de construir.

Patrimônio – É possível dizer que o modernismo se tornou hegemônico como estilo arquitetônico?
Lemos – O modernismo não é hegemônico. Ele se popularizou em manifestações ingênuas ou em meras cópias. Ficou conhecido como uma arquitetura sem estilo. Quando se vê uma construção sem nenhum ornamento, sem nenhuma coisa mais significativa, que é pura e simplesmente uma conseqüência formal de um sistema estrutural, ela é modernista. Mas mesmo assim, na estatística geral, tirando todas essas manifestações populares, o que sobra, dentro das classes pensantes, não soma uma maioria, não é hegemônico, está na metade. Sempre tem alguém transgredindo as regras. Olhe os prédios de São Paulo e você verá que, no que diz respeito a arquitetura comercial, nos prédios de escritório, o modernismo é prevalente – é chique trabalhar em prédio moderno, em prédio inteligente. Mas, quando se trata de arquitetura residencial, ele perde para os neoclássicos da vida.

Patrimônio – As indústrias e o processo de industrialização tiveram conseqüências profundas na organização das cidades. Como o senhor vê as políticas de preservação desse tipo de patrimônio? Como ele pode aumentar nosso conhecimento sobre as relações sociais do passado?
Lemos – No término da primeira república, ainda não houve ninguém preocupado com o desenvolvimento das cidades. No fim do séc XIX, o trânsito foi um dos elementos que impulsionou alterações, como nas articulações das ruas para facilitar a comunicação. O bonde, quando chegou, não pode ser instalado como devia, pois as ruas eram inapropriadas e, por isso, só chegou onde as mesmas permitiam. Ou eram muito estreitas, e o bonde não fazia curvas, ou tinha uma declividade muito grande e o bonde não subia. Você já vê aí uma intervenção em tecido antigo, obsoleto. Essa novidade, por si só, por sua natureza, exigia um traçado urbano diferenciado, que não existia. A confusão começou nesse instante.

Além disso, não havia projeto de zoneamento nas cidades, estabelecendo áreas para comercio, áreas para moradia, indústria. Primeiro porque no começo não havia nem indústria e, segundo, porque esse era o conforto, ter tudo muito perto. A ausência de comunicação, de transporte coletivo organizado, fazia essa mistura, essa falta total de zoneamento.

Em São Paulo, o zoneamento surgiu à revelia dos governantes e do próprio povo. Depois se percebeu que havia uma tendência de se instalar estabelecimentos comerciais nas proximidades da estação do trem, que havia chegado para transportar café de Campinas e Jundiaí para Santos. Só passava por São Paulo porque ela estava no meio do caminho, que era o mais curto. Mas surgiu um processo inicial de zoneamento, quando as indústrias começaram a comprar terrenos perto do trem para montar suas fábricas para receber matéria-prima e exportar com facilidade. Como essas fábricas precisavam de operários, esses operários foram morar perto, nos terrenos, nos interstícios entre as fábricas. É aí que surge o Brás, um dos maiores bairros operários. São Paulo chique vivia no centro histórico e os operários viviam segregados, além rio. E esse quadro foi até a Lapa, onde passava o trem, em direção a Campinas. A confusão foi se acentuando.

Patrimônio – Questões higienistas não pautaram essa questão do zoneamento?
Lemos – Não. As questões higienistas vieram alterar somente as questões do Código de Obras, no que diz respeito às construções, às residências. O nosso Código de Obras foi até inovador, foi o primeiro a exigir insolação nos cômodos, a partir de congressos do final do XIX. O Martins Rodrigues, da USP, trouxe esse critério de se conseguir insolação nos ambientes limitando a altura dos edifícios, tendo em vista a posição da linha norte-sul.

Patrimônio – Mas e o Rio de Janeiro e a reforma urbana de Pereira Passos?
Lemos – Ia falar de Pereira Passos. Quando ele abriu a avenida central queria vias que viessem a facilitar a comunicação, o transporte coletivo. Depois, também para favorecer até a ventilação da cidade, porque a cidade do Rio de Janeiro se expandiu entre morros e só os ricos conseguiam subir os morros e estabelecer suas propriedades em áreas mais ventiladas, como Santa Tereza. Um dos motivos da demolição do Morro do Castelo – um centro histórico por excelência, um desrespeito total – era preciso abrir horizontes, abrir espaços de ventilação, sair daquele sufoco entre morros.

Hoje, quando se fala em patrimônio, só se pensa em igrejas antigas, mansões e praças. Depois, talvez, pensa-se em museu, em estrada de ferro, escolas. Mas para o patrimônio industrial já é tarde. Em São Paulo, por exemplo, não dá para proteger mais. O Brás e suas fábricas, por exemplo, se esvaziou, por vários motivos. As indústrias foram para o interior, talvez em busca de mão-de-obra mais barata ou pelas novas máquinas que passaram a exigir espaços diferentes. Hoje o Brás está repleto de prédios abandonados. Alguns foram comprados ou alugados para abrigar escolas, universidades. Uma fábrica íntegra, tombada, não existe. Até por que o espaço sem as máquinas não tem sentido nenhum. E as máquinas sem o espaço arquitetônico também não têm. Por isso não temos nenhuma fábrica preservada com todas as suas máquinas originais.

O que sobrou foram as vilas operárias, onde as indústrias achavam que era interessante guardar perto de si os operários mais qualificados. Muitos capitalistas faziam conjuntos residenciais modestos, ditos vilas operárias. É interessante esse processo. O Código de Obras da prefeitura de São Paulo, de 1869, tem lá um capítulo sobre casas operárias, mesmo quando não havia fábricas em São Paulo. A palavra operária era para designar a casa de um trabalhador modesto, que trabalhasse num estabelecimento qualquer. Tinha várias exigências, como três cômodos, recuo na frente etc.

Patrimônio – A atuação do Serviço do Patrimônio Histórico Federal (Sphan) foi muito influenciada pelo olhar dos modernistas. Quais as consequências disso para a preservação das construções ecléticas?
Lemos – Isso é complicadíssimo. Precisa de alguém com a cabeça bem fresca para ler tudo o que se escreveu. Talvez até entrevistar os velhotes antigos, remanescentes. Talvez até para justificar comportamentos antigos. Atrás de tudo estão os modernistas. O primeiro intelectual que fez planos sobre a organização de defesa de um patrimônio artístico histórico, foi um modernista suíço, poeta, Blaise Cendrans, que foi trazido pelo pes soal do café, gente da semana de 22. Influenciou Mario de Andrade certamente, no seu programa encomendado pelo Rodrigo de Mello Franco.

Paradoxalmente, os modernistas se voltaram muito para um a visão nacionalista. E tudo que fosse moderno tinha que ser ligado à tradição ao passado verde-amarelo.

É engraçado isso, não havia uma ponte entre a colônia e a modernidade, assim ignoraram solenemente o ecletismo. Não defenderam uma porção sequer do ecletismo. A não ser a arquitetura neoclássica, própria do Império. Então o Império brasileiro tinha vínculos com a arquitetura neoclássica de Napoleão. E o Iphan protegeu e tombou coisas do estilo neoclássico, não por motivos artísticos ou arquitetônicos, mas por pertencerem a história. Então esses edifícios funcionam como documentos representativos e testemunhas de um período da vida brasileira. Tirando isso, tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo o resto das construções ecléticas foi desprezado.

Patrimônio – O modernismo é um estilo arquitetônico simbólico do Brasi l, talvez por causa de Brasília. Mas o colonial está presente na maior parte das cidades consideradas históricas. Existe alguma arquitetura a que se possa chamar de tipicamente brasileira?
Lemos – Eu vou contar uma história. Fui o autor da parte de arquitetura do livro A arte no Brasil. Fizemos um retrato geral do que aconteceu, a fundação de São Paulo, os holandeses no Recife, até Oscar Niemeyer em Brasília. Foi muito bonito e interessou inclusive às editoras estrangeiras, incluindo alguns italianos que diziam: “não interessa a arte no Brasil, nos interessa a arte do Brasil”. Isso foi nas comemorações da descoberta da América por Colombo. Todo europeu estava imbuído da idéia de que eles descobriram a América, a colonizaram, e a América poderia ter produzido coisas que aprendeu com a Europa, mas que fez de um jeito novo em seu próprio território. Os Europeus queriam saber o que a América poderia devolver, do mesmo modo que ela alterou o regime alimentar europeu, dando a batata, o tomate, o chocolate. Você pode imaginar o cardápio italiano sem tomate? Alemão sem a batata? Eles buscavam a contrapartida, intelectualmente falando, na produção de bens culturais realmente americanos.

Mas, para publicar o livro, como distinguir o que era na verdade brasileiro? Não se achou nada. Impossível. Mas se acharam produções em que o tema era americano, o modo de expressar era americano.

Nessa procura difícil da brasilidade na produção artística, influiu muito o saber-fazer europeu associado ao saber-fazer local. E isso tudo vem de uma mestiçagem, é o surgimento de hibridismos próprios da miscigenação. O português, quando veio fazer sua primeira casa aqui, veio só com a roupa do corpo. Ia fazer como? Tinha que usar a técnica indígena. Agora, quando ele foi fazer sua casa, não a fez a oca, que era promíscua, multifamiliar. Ele foi fazer sua casa unifamiliar. Em vez de fazer sua casa com um espaço único, ele a dividiu em funções: um lugar de cozinhar, um lugar de dormir, a moral cristã sugeria essas coisas.

Foram soluções americanas para resolver problemas europeus. Viram como se fazia farinha aqui, através do puxador do tipiti por tração. O europeu trouxe a prensa. Aí a casa de farinha tomou um ar europeu, embora o ingrediente fosse brasileiro: a mandioca.

Um orientando meu fez uma pesquisa exaustiva sobre a arquitetura dos engenhos e chegou a conclusão que o alpendre, tal como conhecemos, nunca houve nos engenhos do Recife. O alpendre foi introduzido na arquitetura nordestina, por influência dos engenheiros das estradas de ferro. Foram os técnicos ingleses que levaram o alpendre da Índia para o Caribe e de lá para o Recife. Trata-se da cultura material asiática na América.

Nesse espírito de saber o que o Brasil está devolvendo para o mundo eu participei de um evento, em 1993, no instituto de arquitetos de Brescia, que fez uma exposição muito interessante sobre arquitetura design e planejamento brasileiros, sem nenhum vínculo com a Europa. Evidentemente a urbanização foi a de Brasília. Lúcio Costa foi eleito o urbanizador brasileiro que fez o projeto brasileiro de cidade que não existia antes. E foi representado pela filha dele, que fez uma exposição sobre a capital federal. Sérgio Rodrigues, o designer e Zanine Caldas , o arquiteto. Criadores brasileiros de inspiração nacional.

A mundialização ou a globalização, que começou com o ecletismo, vive até hoje. Uma firma norte-americana projeta edifícios para o mundo inteiro, uma firma alemã faz a mesma coisa. Mas, paralelamente, existe a produção individual de arquitetos que não conseguem se desprender de sua ancestralidade. A brasilidade é difícil de se examinar. Ela está embutida nas coisas, no modo de usá-las. Às vezes o programa é brasileiro mas as pessoas não percebem. A arquitetura não é só a exterioridade, a arquitetura não é só o volume arquitetônico, não é a cor do edifício. A arquitetura é também o seu espaço e como esse espaço é usado, como esse espaço permite ser usado à moda brasileira.