Paulo Mendes da Rocha

Flávio Motta 

O Movimento da Arquitetura Moderna não foi tão somente um movimento para modernizar a arquitetura, isto é, atualizá-la dentro dos usos e costumes de hoje. Mais do que isso, ele procura ainda recuperar a integridade da arquitetura, na sua ampla e profunda significação histórica, artística e humana. Dizer, por exemplo, que a arquitetura brasileira contemporânea adquiriu prestígio internacional, é uma questão de prestígio que não fecha a questão. Muito pelo contrário, tem desviado o entusiasmo dos jovens para problemas competitivos, de nivelamento formal e final, conforme padrões que pouco dizem da consciência, do valor qualitativo e das possibilidades da arquitetura no Brasil. O próprio Niemeyer se esforça em corrigir essa tendência, com seu exemplar prestígio internacional, ao versar os problemas de arquitetura dentro dos rigores da crítica e da auto-crítica. Artigas, também, muito pela sua atividade docente e pela sua obra, manifesta continuado empenho na recuperação, preservação e projeção da integridade da arquitetura.

Paulo Mendes da Rocha não se distanciou dos ensinamentos desses dois arquitetos. Na verdade, pertence a uma geração já identificada ao Movimento Moderno, dentro das faculdades, entre o sistematizado e o institucionalizado, onde circulam as predileções e o entusiasmo por certos artistas. Le Corbusier deveria estar entre esses eleitos. Mas, seguindo essa trilha, só derivaríamos por uma árvore genealógica, interminável, caótica pelo emaranhado do explicativo com que se carregam os exemplos. Vamos, pois, ficar por aqui mesmo, onde os exemplos podem ser vistos. A proximidade e a simultaneidade com que procuramos situar os trabalhos de Paulo Mendes da Rocha, em relação aos dois arquitetos brasileiros, é apenas para frizar que os três estão aproximados e comprometidos à mesma experiência histórica e social.

Avançaremos a hipótese de que Paulo Mendes da Rocha encontrou em Niemeyer a tônica do confronto Arquitetura-Natureza, e, em Artigas, Arquitetura-Sociedade. Seria restringir no texto aquilo que é tão rico no contexto. Mas diremos: em um, Niemeyer, na ocupação da Natureza pouco comprometida pela ação do homem – a arquitetura se destaca, cheia de sobriedade, daquela mesma “sobriedade” de que fala Lúcio Costa ao tratar da arquitetura dos padres no nosso passado colonial; em outro, como Artigas, é pelo trato, pelo convívio com os conflitos do homem em sociedade, em busca de um viver que garanta a presença desse homem.

Mas esse viver não é simplesmente o resultado de uma “concentração de pessoas como acontecimento natural” – como poderia sugerir a consideração sobre o ginásio coberto do Paulistano (Acrópole, n.º 342). A idéia de espaço arejado, iluminado, leve, de fácil acesso, de eficiente circulação, impregnado de boa biologia, pode até representar um anteparo premonitório àqueles que deverão confrontar o “subdesenvolvimento machucado”. Esse mundo de elegância, de encantamentos, está na antípoda do viver de uma grande parte da população brasileira. É limpidez de outra espécie, como garça branca, nítida e aristocrática; qual segunda natureza, a lembrar o homem uma generosidade germinal. Nada tem a ver com a condenação irrecuperável. É a arquitetura que tenta “pousar”, sem violações, diante desse homem deformado e transformado do nosso Brasil Central, desse homem mais próximo à Geografia do que à História, que lembra mais a árvore do cerrado do que a Alvorada do Palácio. Tal imagem pode não passar de pura literatice. Mas ela nos oferece o cenário para distinguir as relações Natureza-Arquitetura, sem subordinação a um rigor “técnico”, pseudo-científico, métrico, tipo moralidade-ferina.

Se essa arquitetura está distante do homem que a contempla com alegria justificada; se ela é vista como pura exterioridade, é porque as distancias são outras e de outra natureza. O artista, porém, pode se permitir não frustar o gesto generoso que emerge do puro desejo de comunicação. Bem sabemos, por outro lado, que a solidariedade com a Natureza, em termos de voraz apropriação, é irreversível e conduz à “coisificação”. O homem acaba por ter, sem ser. A simplicidade de meios, em Niemeyer como em Paulo Mendes da Rocha, tem a ver também com a solidariedade humana, por que não invade, nem violenta a natureza. Chega até a ser precária, não por avareza, nem por problemas pecaminosos, mas por um otimismo que confia na solidariedade humana e nos processos de transformação. Não pensa, um minuto sequer, em reter o avanço social em suas formas várias e também novas.

Acreditamos que Paulo Mendes da Rocha se situa nessa área de interesse, sem perder de vista a experiência de Niemeyer. Eliminados os temores, a intriga que reduz o espaço social, então poderíamos ler novamente a expressão “concentração de pessoas como acontecimento natural”- para clube, como para praça ou outro espaço qualquer que venha surgir com nome ou sem nome. Sim, porque há espaços profundamente significativos, sem nome. E isso Paulo Mendes da Rocha já descobriu. Pelo menos assim o constatamos ao conhecermos a nova residência no Butantã. Ali é que se pode o que chamaremos de “espaço pessoal”, de “espaço impessoal”. Nesse ponto, vale reconhecer as sintonias com a obra de Artigas, inclusive para deixar de lado certos paralelismos formais, sempre impregnados de transitoriedade no discípulo. O espaço como projeto social, este sim, já ali vai se precisando melhor, por um relacionamento do viver meio “favela racionalizada”, onde cada um aceita o convívio com os demais, sem muradas sólidas, mas dentro de novas e procuradas condições de respeito humano. É proposta que pede resposta, porque é trabalho criador com sua implícita responsabilidade social.

Gostaríamos de não esconder que foi no contato com essas soluções espaciais que procuramos distinguir “espaço pessoal” de “espaço impessoal”.

Quando falamos em significação pessoal do espaço, nos referimos às possibilidades que são oferecidas a cada um de organizar o próprio espaço, ou pelo menos de tomar consciência de que cada um pode projetar ou determinar uma organização “sui generis” de espaço. Tem uns que nem isso têm. São os homens das “novas caixas de morar” de Rubens Gerchman (IX Bienal). Em termos coloquiais, diríamos que o “espaço pessoal” projetado, nada mais é do que “o arranjar ou arrumar as coisas”.

A dominância nesse sentido de organização do espaço se refere, muito mais, a aspectos corporais, às conhecidas comodidades, até o controle remoto, as facilidades técnicas, a aperfeiçoada e exclusiva relação “bios”-cosmos. Muitos não vão além dessas projeções espaciais. Alguns conseguem apenas transferir um espaço pessoal para outro, como se mudassem de uma estrutura para outra, em termos arquiteto-cliente. Por vezes penosa, essa transferência, não raro, é pura identificação de “status”. Propor novos critérios de relacionamento entre os homens é uma das opções cruciais do artista.

Não raro, optamos pela redução. Introjectamos o mundo, agrupando no espaço individual aquilo que é produto do social.

Assim, homem, mulher, criança, velho, jovem, encurtam o mundo; levam tudo para o quarto, para o armário, para a gaveta; fecham, trancam e protegem o mundo único, pequeno e indevassável universo. Todo esse temor, nada mais é do que uma agressão que determinadas relações sociais cometem contra o indivíduo. O indivíduo se defende tendo coisas; ou atrás das coisas ou dentro das coisas, como aquelas mulheres de pano às cadeiras “integradas”, de Paul Harris (IX Bienal).

O homem acumula coisas até virar coisa. Lembremos o cronista que dizia: “Que fazer! Gosto destas cadeiras, deste sofá, deste terraço; hoje estou preso a estes objetos por gratidão, pelas horas de conforto e tranqüilidade que me proporcionaram; sou mais grato às cadeiras que me permitiram conforto do que aos artesãos que a construíram, porque eles eu não vejo, nunca vi, nunca verei, escamoteados pelo anonimato. Este universo se move ao meu derredor, sugestivo e digestivo. Coabito num tipo curioso de fraternidade como pura materialidade que é profunda como a melancolia e distante como a solidão.”

É esse o clima dos quadros de Hopper e das figuras de gesso de George Segal (IX Bienal). O homem ali está paralizado pelo temor. Ele vive num tempo específico, rigorosamente determinado. Circula atento e contido, entre muralhas imaginárias que são mais resistentes que as do mundo medieval.

Atenção e tensão se identificam em constatações. O homem imobiliza-se diante das coisas por perplexidade, por dualidade. “Sempre uma coisa diante da outra”, no dizer de Fernando Pessoa. As coisas parecem viver independentes. Tudo se soma ou se liga por associações insignificantes, como no mundo esquizofrênico de que fala Jung (Realidade da alma). O objetivo se faz imaginário e realmente se atira contra nós por uma espécie de deslocamento negativo. Tudo se arma no binômio “coisa” e “não coisa”, dos saltos bruscos entre o vazio como espaço de fora, e o vazio como espaço de dentro – como aliás deveria ser o mundo das coisas, silenciosas e cercadas de vácuo. Mas dentro desse “modus vivendi”, pouco resta de “vivendi” se os arquitetos, por reflexão, por experiência, por lá não se sabe mais o que, não se dispuserem a realmente projetar.

Paulo Mendes da Rocha se atira contra esse imobilismo com ganas de artista, brasileiro que é. Ele ainda nos permite estas investidas na medida que interessam à arquitetura, porque interessam à arte e ainda porque interessam ao homem. Não só permite, mas instiga, inclusive além fronteiras, menos por Geografia, mais por História, à procura de um tempo que não foi perdido, mas tirado.

publicado em ‘textos informes’,São Paulo, FAU, 1971.